Cenário dos dois maiores conflitos internacionais do pós-Guerra Fria, em 1990-91 e em 2003, o Golfo Pérsico tem se destacado com a área mais explosiva do planeta – centro de gravidade para onde convergem diferentes interesses estratégicos. Essa região, submetida à dominação colonial e neocolonial até meados do século XX, abriga cerca de 2/3 das reservas mundiais de petróleo – um recurso econômico essencial, não renovável e com o risco crescente de escassez, num contexto em que a demanda mundial cresce num ritmo mais rápido que a capacidade de expansão da oferta.
No presente trabalho, tentarei investigar os vínculos entre essas duas questões. De um lado, a crescente presença militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e o seu envolvimento em conflitos na região. Do outro, o aumento da importância econômica das reservas de petróleo e as implicações estratégicas do controle sobre esses recursos.
Uma tarefa central, nessa empreitada, é desvendar as raízes históricas dos conflitos e impasses da atualidade. Convencido de que somente a partir da História as motivações e o comportamento dos atores se tornam compreensíveis, dedicarei a maior parte da dissertação à evolução das relações entre os EUA e os principais países produtores de petróleo do Golfo Pérsico.
Como marco inicial, escolhi 1945 – o ano do célebre encontro em que o presidente Franklin Roosevelt, no fim da II Guerra Mundial, firmou com o rei Ibn Saud o compromisso de proteger a Arábia Saudita em troca do acesso ao petróleo daquele país.
O texto usará como referência as sucessivas doutrinas de política externa aplicadas pelos EUA no Golfo Pérsico: as doutrinas Truman e Eisenhower, impregnadas da competição estratégica e ideológica da Guerra Fria; a Doutrina Nixon, que consagra o Irã e a Arábia Saudita como “pilares” da defesa dos interesses norte-americanos na região; a Doutrina Carter, que declara o acesso dos EUA ao petróleo do Golfo Pérsico como um interesse “vital”, a ser defendido pela força militar, culminando com a “Doutrina Bush”, instrumento de legitimação das intervenções unilaterais e da “guerra preventiva”.
Serão abordados momentos chaves da atuação norte-americana no Golfo Pérsico, como a derrubada do governo nacionalista de Mossadegh no Irã, a crise do Canal de Suez, o “choque” do petróleo de 1973, a queda do xá em 1979 e a guerra para reverter a ocupação do Kuwait pelo Iraque. Mas o foco não estará voltado para as circunstâncias e, sim, para as linhas gerais que perpassam esses conflitos – a substituição do decadente imperialismo britânico pela hegemonia dos EUA, o desafio norte-americano de apoiar ao mesmo tempo Israel e os regimes árabes conservadores, a contenção da influência soviética e a afirmação do nacionalismo como uma força poderosa em todo o Oriente Médio.
Também procurarei analisar os principais documentos oficiais norte-americanos recentes que tratam da segurança energética em sua ligação com a política externa, em especial no que se refere ao petróleo.
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